A Susana já deve ter quase 20 anos de estrada, o que acaba por desculpar o que estava prestes a acontecer.
Naquele dia, a velocidade era a de sempre. O vento batia-me no rosto enquanto eu me aproximava daquele passeio que uso como rampa há décadas. Não abrandei. Ganhei balanço, puxei o guiador com firmeza e voámos. Aterragem seca, rápida, implacável. Tudo parecia perfeito. O que eu não fazia a menor ideia é que, naquele exato impacto, algo se partira silenciosamente debaixo de mim.
Após o salto, mantive o ritmo. Pedalei à confiança durante mais uns 20 minutos, rasgando a noite de regresso a casa, completamente alheio ao perigo. Mas a ilusão de segurança tinha os minutos contados. Já muito perto do destino, um barulho metálico quebrou o silêncio. Logo a seguir, passei a sentir a roda traseira a roçar no quadro sempre que fazia força nos pedais. Estranhei, mas como faltava tão pouco para chegar, decidi não parar e investigar depois.
Foi então que, ao subir um último passeio a baixa velocidade, o impensável aconteceu: a roda traseira saltou do quadro e fiquei, literalmente, com a bicicleta na mão.

Como já era escuro e a visibilidade era fraca, demorei um pouco a entender a cena. Aos poucos, as peças do puzzle foram encaixando: o buraco no cubo, as peças perdidas pelo caminho… O eixo e a vareta tinham partido!
Antes de mais nada, tenho de reconhecer o profissionalismo da Susana. É incrível como aguentou mais de 20 minutos em pleno andamento com o eixo desfeito, lutando para não deixar a roda ceder e atirar-me ao chão. Só de pensar no que poderia ter acontecido se ela tivesse colapsado naqueles momentos de maior velocidade… dá calafrios. Possivelmente, não estaria aqui a escrever isto agora.
A reparação acabou por ser relativamente simples. O eixo estava irrecuperável e teve de ser substituído. Aproveitando que o cubo ficou exposto, decidi trocar também os rolamentos e a graxa, que já acusavam o desgaste destas quase duas décadas de pedalares.
A bicicleta está pronta para mais 20 anos!









